Pensamento Complexo e o Twitter

O pensamento complexo é um paradigma cientifico que, basicamente, insere na análise o incerto, contrariando alguns princípios da abordagem clássica, um deles seria que só é científico aquilo que poderia ser medido. Transportando isso para as organizações, significa dizer que a base da ciência administrativa clássica seria o controle, o que efetivamente esta subjacente ao desenvolvimento da teoria organizacional desde o Taylorismo.

Portanto, o principal alvo do pensamento complexo na teoria organizacional é propor menor controle para que com isso se aceite o incerto, por exemplo, aceitar diversidade de opinião dos funcionários. Espera-se com isso que a organização tenha maior potencial de adaptação (aprendizagem) e inovação, o que seriam competências organizacionais importantes em um ambiente caracterizado como caótico.

O pensamento complexo está sendo aceito em várias ciências, e muitos pesquisadores organizacionais estão desenvolvendo pesquisas com esses pressupostos. No entanto, as organizações em geral estão em outra sintonia, apostando cada vez mais no controle, dando assim, pouca importância ao fato de estarem em um ambiente caótico ao qual o paradigma clássico não mais oferece respostas adequadas.

E o Twitter, o que tem a ver com isso? Considero a ferramenta como o ambiente mais caótico que já fiz parte, pois o que caracteriza esses ambientes é a não linearidade das interações que impõe a desordem completa. O Twitter pode ser usado futuramente como uma metáfora do caos, assim como a máquina foi a metáfora utilizada para representar o pensamento clássico.

Para as organizações, esse ambiente se configura como caótico em diferentes aspectos, por exemplo, não há como controlar a exposição da marca, uma vez que a velocidade de distribuição é muito rápida e qualquer esforço de defesa de reputação é bastante oneroso e inócuo. Outro aspecto caótico desse ambiente é que muitos funcionários, que são reconhecidos como pertencentes à organização, ao gerarem conteúdos podem ser interpretados como se falassem por ela, o que pode levar a repercussões não desejadas.

Especificamente com relação a essa ameaça, a organização pode atuar de duas formas distintas que caracterizaria ou a adoção do paradigma clássico ou do paradigma complexo. Na primeira forma, a solução poderia ser impor regras de conduta ao funcionário que gera conteúdo no Twitter, e controlar o que é publicado. A outra solução poderia ser incentivar o funcionário a encarar a utilização desse canal como uma oportunidade de aprendizagem pessoal e também organizacional, por exemplo, criando grupos de aprendizagem organizacional com àqueles na empresa que têm participação destacada no Twitter. Essas duas formas não esgotam as possibilidades, mas conseguem caracterizar os extremos de cada paradigma.

O caso da Globo parece interessante, pois tem vários twitteros que são identificados como da empresa, o que significa que o conteúdo gerado por estes pode ser confundido como da organização. O que fazer? A Globo, ao que parece, resolveu criar um conjunto de regras e controlar o conteúdo. Será que essa ação mudou a atuação dos twitteros? Será que mudando eles não perderam relevância? Isso foi bom ou ruim para a imagem da organização?

São questões polêmicas, se perguntarmos a um executivo provavelmente ouviremos que a Globo fez o que devia fazer. No entanto, analisando pelo paradigma complexo, podemos chegar a conclusão que a Globo perdeu uma oportunidade de adotar uma postura mais adequada e inovadora. São questões que ultrapassam a idéia simples de como as organizações devem se posicionar no Twitter, uma vez que o poder da incerteza nesses ambientes é grande. Uma evidência disso é que no Twitter, o perfil de uma pessoa sempre terá mais relevância do que um perfil organizacional, portanto o que dizem os funcionários tende a ter mais força do que dizem as organizações.

O bacana disso é que qualquer organização pode ter o mesmo problema, todas terão que tomar uma postura frente a essa situação. Teremos diferentes estratégias, e resultados que confirmam uma ou outra, mas o importante é que há oportunidades que podem transformar as relações entre organizações e o ambiente, nas quais as pessoas têm, em tese, maior influência do que a postura institucional definida na sala do diretor de marketing.

Você é de direita ou de esquerda?

Saiu um pesquisa interessante do Datafolha, eles utilizaram uma escala Likert de 7 posições para que os eleitores respondessem: “Como você sabe, muita gente quando pensa em política utiliza os termos esquerda e direita. No quadro que aparece neste cartão, em qual posição você se coloca, sendo que a posição “um” é o máximo à esquerda e a posição “sete” é o máximo à direita?

Seria interessante uma pesquisa mais completa, com varias perguntas indiretas que confirmassem a posição. Por exemplo, você concorda com a cobrança de pedágio como contrapartida a uma diminuição concreta dos impostos? Por outro lado, você concorda com a recriação da CPMF para dar maiores recursos para saúde? E assim por diante, pois creio que poucos no Brasil sabem o que significa direita ou esquerda.

Fiquei surpreso com o resultado da pesquisa, pois mostra que muitos brasileiros se consideram de direita, ainda que exista o preconceito com respeito a pessoa que assume ser de direita,  que é muitas vezes taxada de individualista e defensora de privilégios. Por outro lado, também existe o preconceito com pessoas que se dizem de esquerda, mas na minha avaliação é bem menor.

A diferença clássica é que a direita defende um estado mínimo e da livre iniciativa, já a esquerda defende um Estado maior e com mais controle das atividades da iniciativa privada. Portanto, a privatização é uma clara política de direita, já o aumento do Estado com maiores tributos e contratações, são políticas tipicamente de esquerda.

Essa separação meio que cai por terra, pois a maioria dos governos no mundo são efetivamente híbridos, ou seja, adotam diferentes políticas que dependendo do caso adota uma doutrina ou outra. EUA é tipicamente adepto a livre iniciativa, no entanto em certos casos, adotas políticas de esquerda. Lula se diz de esquerda, mas a atuação do Banco Central tem traços ditados pela doutrina da direita.

No entanto, a classificação ainda serve para análise para caracterizar as idéias de cada candidato em cada campo de atuação. Por exemplo, considero importante no Brasil ter um governo de esquerda no que tange a educação e saúde, com um Estado cada vez mais forte nessas áreas. No entanto, acho que os impostos devem ser reduzidos e concordaria, por exemplo, em pagar pedágios em troca de menos impostos.

Considero a pesquisa superficial, mas é um indicador importante, agora seria interessante fazer uma pesquisa complementar que trabalhasse melhor essa questão, pois essas definições dizem muito sobre as características do eleitorado.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/742942-maioria-dos-eleitores-do-psdb-diz-ser-de-direita.shtml

Bolívia, Irã, Política Externa e Eleições

Já li análises sobre a política americana que afirmam que a política externa não influencia nas eleições. Parece estranho para nós, pois avaliamos os governos dos EUA justamente pela sua política externa, mas para os americanos importa mais como ficará o preço do metanol.

Será que no Brasil acontece a mesma coisa. Essa semana houve alguns fatos, Lula e o Irã, Serra e a Bolívia e ainda Dilma e a Bolívia. Minha aposta que aqui como lá, esses fatos não tem menor relevância para a maioria dos brasileiros, e mais, escapam do seu entendimento.

Mais uma vez Serra conseguiu pautar o discurso de Dilma, no entanto, dessa vez o assunto não tem o mesmo apelo do "Ministério da Segurança", embora a questão base seja a mesma (combate ao narcotráfico). Seria mais interessante para Serra aumentar o debate sobre o "Ministério da Segurança", desenvolvendo mais qual seria seu papel. Dilma deve rever sua estratégia de se pautar no discurso de Serra, estratégia perigosa.


Eleição, continuidade ou avanço?

A campanha já começou, e como não estamos em período eleitoral, o jogo fica bem mais interessante, embora ilegal. Fica interessante porque a imprensa é mais livre, não precisa conceder para todos o mesmo espaço e com isso pode ser mais dinâmica. Acompanhando a movimentação dos candidatos, é nítido, por um lado Dilma tenta colar em Lula e por outro Serra tenta se afastar do confronto com Lula. Por enquanto, Lula é ainda o jogador principal mesmo não sendo candidato.

No entanto, há uma diferença, como o maior esforço de Dilma é em colar em Lula, ela acaba ficando sem um discurso que caracterize avanço, parece uma continuidade. Ao mesmo tempo, Serra evitando o confronto com Lula, tenta colar sua candidatura a um avanço da situação atual. Se analisarmos, por exemplo, a proposta de criação do Ministério da Segurança que conseguiu o objetivo de virar pauta em ambos os lados, e é uma proposta que tem o potencial de aparecer nas conversas de esquina. Essa proposta será certamente encarada como um avanço, pois toca num ponto sensível de qualquer governo do Brasil, que é a sensação de insegurança da população.

Serra precisa encontrar outros pontos, ouvi ontem uma entrevista dele que fala em um ministério dos deficientes físicos, acho que essa proposta não terá o mesmo efeito, embora importante, a ideia pode soar como criação exagerada de ministério. Pelo lado da Dilma, pessoalmente acredito que se ela ficar só na sombra de Lula (programa de ontem) perderá espaço entre os eleitores que não querem mudar, pois avanço sempre parece mais interessante do que continuidade.

Ibope entre 6 e 10 de março de 2010, Mulheres com Serra e Homens com Dilma

Saiu a nova pesquisa eleitoral do Ibope e, diferente da última, os dados não trazem dados que permitam fazer inferências sobre o sentimento  do eleitor relacionados as suas preferências e preocupaões.

No entanto, quero destacar um dado interessante, se a eleição fosse só entre os homens, Dilma já estaria a frente de Serra e, lógicamente, se fosse só entre as mulheres a diferença entre Serra e Dilma passaria de 5 pontos para 17 pontos.

Fiquei curioso e verifiquei que esse fenômeno, em certa medida, tinha aparecido na pesquisa Ibope feita entre os dias 6 e 9 de fevereiro, quando Dilma tinha 7 pontos a mais entre os homens do que entre as mulheres.

Uma explicação é que o percentual de mulheres indecisas nas duas pesquisas é maior do que o dos homens.

No entanto, isso não explica tudo, será que as mulheres tem mais dificuldade em votar na Dilma do que os homens? Essa questão de gênero vai ser assunto nessas eleições, já que Dilma é favorita e os dados até agora dão margem para especulações.

Link para pesquisa completa: http://www.cni.org.br/portal/data/pages/FF80808121B718120121B73D14D55859.htm#Conteudo

A atual Classe C brasileira e as eleições

Estava esperando uma oportunidade para ler a entrevista do Sociologo Bolívar Lamounier na veja de 24 de fevereiro. Ele, junto com Amaury de Souza escreveu recentemente o livro “A classe média brasileira, Ambições, Valores e Projetos de Sociedade”.

Não li o livro, mas parece que o entrevistador também não leu, pois as perguntas não exploraram o tema central que o título denota. No entanto, ele levantou algumas questões importantes quanto às aspirações da classe C nos próximos anos que refletem na eleição. Segundo o entrevistado, essa classe é representada pelas famílias que ganham entre R$ 1.115 e R$ 4.807, e representam praticamente a metade da nossa população. Ainda segundo dados da reportagem, a soma de sua renda já é a maior fatia da renda nacional.

O ponto que destaco da entrevista é a diferença da formação da classe C atual, antes basicamente formada por funcionários públicos, homogênea, conservadora e governista (Hay gobierno, soy a favor). A classe C atual é resultante principalmente dos efeitos da estabilização da economia, que resultou no aumento do poder aquisitivo de trabalhadores, micro-empresários e profissionais liberais.

O que dá para tirar da entrevista é que a classe C é muito heterogênea, ou seja, não pode-se tratar essa parcela da sociedade como um grupo, há vários grupos. Há pouca identidade e, como hipótese, dá para estabelecer um valor e uma aspiração. O valor seria o entendimento que a estabilidade econômica e das instituições são os depositários da melhoria de qualidade de vida. Assim, qualquer candidato ou governo que puser isso em risco, não terá apoio dessa classe.

Quanto a principal aspiração dessa classe, pode-se definir como a necessidade de continuidade de acensão social da família. Nesse particular, o autor identifica que a preocupação maior é com a educação, mais especificamente com os resultados da educação. Segundo o autor, há um movimento crescente da preocupação dos pais com a educação dos filhos, que não se restringe mais à se o filho está indo a escola, mas ao que ele está aprendendo.

Por essa análise, nessa eleição, o debate profundo das questões da educação no Brasil terá maior interesse do que na eleição passada. É importante lembrar, que em 2006, Cristóvão Buarque teve uma ótima votação falando apenas em educação. No primeiro programa de Marina Silva, quando todos esperavam um discurso verde, ela deu um discurso da educação, talvez com o objetivo de ocupar o lugar de Cristóvão na última eleição.

O debate eleitoral tende a ser rasteiro quanto a educação, Cristóvão na última eleição defendeu principalmente que educação deveria ser prioridode, não entrou no como fazer, em melhores práticas, etc… Se realmente uma parcela significante da população tem na qualidade da educação sua principal preocupação, seria inteligente que os candidatos se preparacem para um debate mais profundo sobre o tema, envolvendo questões como avaliações, recompensas por resultados, aulas de reforço, ensino técnico, currículo, etc…

Todos os candidatos farão o discurso de priorizar a educação, mas parece que quem se mostrar mais preparado dentro do assunto terá maior receptividade nessa classe social.

Link da Entrevista – http://veja.abril.com.br/240210/classe-c-quer-muito-mais-p-015.shtml

Proposição Inicial de Pesquisa para o Mestrado em Marketing – P01

A principal função desse blog é divulgar os resultados das pesquisas realizadas no meu curso de mestrado em Marketing na UFPB. Sendo assim, começamos desenvolvendo a ideia inicial de pesquisa.

As estratégias de gerenciamento de marcas têm maior importância em mercados cada vez mais competitivos e em que os consumidores têm cada vez mais força em comparação às organizações. O gerenciamento adequado do posicionamento necessita do monitoramento permanente do que é associado a marca pelos consumidores. No entanto, os métodos convencionais para aferição de marcas são extremamente custosos, intrusivos e dificultam uma análise contínua, pois têm como base pesquisas pontuais.

A internet faz, cada vez mais, parte do cotidiano das pessoas, sendo usada para múltiplas tarefas, muitas dessas ligadas ao consumo. Com o crescimento do uso da internet há o aumento de referências espontâneas a experiências de consumo feitas em diferentes canais da grande rede. Em conseqüência disso, surge a oportunidade da realização de pesquisas usando como base o conteúdo gerado pelo consumidor (CGC) sobre importantes questões para o marketing, como: análise para segmentação de mercado, análises do comportamento do consumidor em redes sociais, aferições de reputação de marca e lealdade de marca.

Muitas dessas pesquisas que utilizam dados coletados na internet baseiam-se em métodos qualitativos, principalmente netnografia. O uso dessa metodologia necessita que se restrinja a base de dados para manter administrável o processo de análise, o que a caracteriza como uma rica análise de uma base de dados restrita. Além da limitação pela necessidade de restrição da base dados, esse método é pontual, dificultando a avaliação contínua dos dados.

Estudos publicados recentemente adotaram técnicas analíticas da área de estudo da Inteligência Artificial para aferição de marcas. São estudos que usam a Análise Léxica Semântica (ALS) em resultados obtidos nos mecanismos de busca como o Google para atribuir significado relevante aos dados coletados. As vantagens seriam a criação de um método não intrusivo, que utiliza um grande volume de dados disponíveis na internet e que possibilita aferições contínuas, pois uma vez a pesquisa estruturada, pode-se analisar a evolução dos resultados em tempo real.

Sendo um método que se utiliza da linguagem, necessariamente terá que ser estudado para determinar as especificidades de aplicação no Brasil. Pouco há publicado sobre aplicação da ALS em bases de dados secundárias da internet para aferição de marcas no Brasil. Já no mercado, ao contrário, há um representativo movimento de oferta de ferramentas com esse propósito (WEB-STRATEGY, 2009).

Esses fatos motivaram a proposição de uma revisão teórica extensa sobre o assunto e a experimentação no ambiente brasileiro para responder se o método de pesquisa ALS na internet brasileira tem aplicação para aferição de marcas, e quais são as implicações de sua utilização.